sábado, 18 de julho de 2009

Porto, Rios e Canoas

Pe. Geraldo Martins

Cada vez mais em evidência, a Amazônia se torna o centro das atenções por acolher, na próxima semana, dias 21 a 25, um dos maiores eventos da Igreja no Brasil. Trata-se do 12° Encontro Intereclesial das Comunidades Eclesiais de Base, que reunirá, durante quatro dias, cerca de três mil lideranças das CEBs de todo o Brasil na simpática e acolhedora Porto Velho, capital de Rondônia. Eis aí uma prova do quanto as CEBs estão vivas!

Preparado com esmero durante os últimos quatro anos pela arquidiocese de Porto Velho, o 12° Intereclesial tem o rosto da Amazônia, não só pelo tema – “CEBs, Ecologia e Missão” – mas, também pela linguagem e metodologia que, embora sigam a direção dos encontros anteriores, trazem traços específicos da região. E não poderia ser diferente, uma vez que a inculturação tem, nas CEBs, uma de suas mais fortes aliadas.

Um dos traços mais visíveis deste esforço de inculturação está nos nomes dados aos grupos de trabalho em que serão divididos os participantes. Ao contrário de Minas, que sediou o último encontro e usou o trem como símbolo em sua metodologia, Porto Velho traz o barco como imagem das CEBs.

Reunidos de todos os cantos do país e também da América Latina, os participantes do 12° Intereclesial se encontrarão num grande “Porto”, neste caso, o Ginásio do Sesi, onde acontecerão as celebrações em comum e a partir de onde se distribuirão para os trabalhos que marcarão o encontro. Já podemos antever a animação e a alegria regadas a muito canto, dança e oração, características das CEBs, expressão da riqueza cultural e religiosa presente nas milhares de CEBs espalhadas de norte a sul do Brasil.

Do “Porto”, subdivididos em grupos de 250 pessoas, os delegados do Intereclesial partem para os chamados “Rios”. São 12 ao todo, lembrando os rios da Amazônia. É aí que os participantes, em grupos de 20, embarcarão em “Canoas” para navegar sobre os temas do Intereclesial. Cada “Rio” terá 12 “Canoas”. Podemos imaginar como ficarão bonitos os rios da Amazônia com tanta gente comprometida com a vida navegando sobre eles! E o quanto não aprenderão nestas águas que escondem mistério e encanto.

Porto, Rios, Canoas! São as CEBs emprestando sua voz para fazer ecoar no Brasil e na América Latina o grito que vem da Amazônia por vida, justiça e paz! O grito por uma sociedade universalmente fraterna, que busca o desenvolvimento humano integral a partir do respeito à vida em todas as suas manifestações, à natureza, aos povos e culturas, especialmente, os originários da Amazônia. O grito por uma Igreja cujo rosto seja o desenhado pelo Vaticano II, retocado por Medellín e Puebla, reconhecido por Aparecida, assumido por tantas dioceses do Brasil e da América Latina e Caribe.

Que rosto é este? O rosto de uma Igreja pobre e dos pobres, como foi lembrado pelos bispos em Aparecida ao assumirem como compromisso “trabalhar para que nossa Igreja Latino-americana e Caribenha continue sendo, com maior afinco, a companheira de caminho de nossos irmãos mais pobres, inclusive até o martírio”.

Ah, como será bom ver nossos bispos, padres, religiosos e religiosas, leigos e leigas de todos os movimentos e associações subindo neste mesmo barco das CEBs e abrir seus ouvidos para ouvir o clamor que vem da terra, da Amazônia e de todos quantos gritam por vida e solidariedade! Melhor, ainda, será vê-los assumirem compromissos que respondam a este clamor, ainda que ao preço do martírio. Então, sim, nossa Igreja estará sendo sinal do Reino inaugurado por Jesus.

Um comentário:

Gilberto disse...

Fantástico o texto!
E também a dinâmica do intereclesial...