quarta-feira, 13 de abril de 2016

MENSAGEM DA CNBB PARA AS ELEIÇÕES 2016

“Quero ver o direito brotar como fonte e correr a justiça qual riacho que não seca” (Amós 5,24)



Neste ano de eleições municipais, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil – CNBB dirige ao povo brasileiro uma mensagem de esperança, ânimo e coragem. Os cristãos católicos, de maneira especial, são chamados a dar a razão de sua esperança (cf. 1Pd 3,15) nesse tempo de profunda crise pela qual passa o Brasil.

Sonhamos e nos comprometemos com um país próspero, democrático, sem corrupção, socialmente igualitário, economicamente justo, ecologicamente sustentável, sem violência discriminação e mentiras; e com oportunidades iguais para todos. Só com participação cidadã de todos os brasileiros e brasileiras é possível a realização desse sonho. Esta participação democrática começa no município onde cada pessoa mora e constrói sua rede de relações. Se quisermos transformar o Brasil, comecemos por transformar os municípios. As eleições são um dos caminhos para atingirmos essa meta.

A política, do ponto de vista ético, “é o conjunto de ações pelas quais os homens buscam uma forma de convivência entre indivíduos, grupos, nações que ofereçam condições para a realização do bem comum”. Já do ponto de vista da organização, a política é o exercício do poder e o esforço por conquistá-lo1, a fim de que seja exercido na perspectiva do serviço.

Os cristãos leigos e leigas não podem “abdicar da participação na política” (Christifideles Laici, 42). A eles cabe, de maneira singular, a exigência do Evangelho de construir o bem comum na perspectiva do Reino de Deus. Contribui para isso a participação consciente no processo eleitoral, escolhendo e votando em candidatos honestos e competentes. Associando fé e vida, a cidadania não se esgota no direito-dever de votar, mas se dá também no acompanhamento do mandato dos eleitos.

As eleições municipais têm uma atração e uma força próprias pela proximidade dos candidatos com os eleitores. Se, por um lado, isso desperta mais interesse e facilita as relações, por outro, pode levar a práticas condenáveis como a compra e venda de votos, a divisão de famílias e da comunidade. Na política, é fundamental respeitar as diferenças e não fazer delas motivo para inimizades ou animosidades que desemboquem em violência de qualquer ordem.

Para escolher e votar bem é imprescindível conhecer, além dos programas dos partidos, os candidatos e sua proposta de trabalho, sabendo distinguir claramente as funções para as quais se candidatam. Dos prefeitos, no poder executivo, espera-se “conduta ética nas ações públicas, nos contratos assinados, nas relações com os demais agentes políticos e com os poderes econômicos”2. Dos legisladores, os vereadores, requer-se “uma ação correta de fiscalização e legislação que não passe por uma simples presença na bancada de sustentação ou de oposição ao executivo”3.

É fundamental considerar o passado do candidato, sua conduta moral e ética e, se já exerce algum cargo político, conhecer sua atuação na apresentação e votação de matérias e leis a favor do bem comum. A Lei da Ficha Limpa há de ser, neste caso, o instrumento iluminador do eleitor para barrar candidatos de ficha suja. 

Uma boa maneira de conhecer os candidatos e suas propostas é promover debates com os concorrentes. Em muitos casos cabe propor lhes a assinatura de cartas-compromisso em relação a alguma causa relevante para a comunidade como, por exemplo, a defesa do direito de crianças e adolescentes. Pode ser inovador e eficaz elaborar projetos de lei, com a ajuda de assessores, e solicitar a adesão de candidatos no sentido de aprovar os projetos de lei tanto para o executivo quanto para o legislativo.

É preciso estar atento aos custos das campanhas. O gasto exorbitante, além de afrontar os mais pobres, contradiz o compromisso com a sobriedade e a simplicidade que deveria ser assumido por candidatos e partidos. Cabe aos eleitores observar as fontes de arrecadação dos candidatos, bem como sua prestação de contas. A lei que proíbe o financiamento de campanha por empresas, aplicada pela primeira vez nessas eleições, é um dos passos que permitem devolver ao povo o protagonismo eleitoral, submetido antes ao poder econômico. Além disso, estanca uma das veias mais eficazes de corrupção, como atestam os escândalos noticiados pela imprensa. Da mesma forma, é preciso combater sistematicamente a vergonhosa prática de “Caixa 2”, tão comum nas campanhas eleitorais.

A compra e venda de votos e o uso da máquina administrativa nas campanhas constituem crime eleitoral que atenta contra a honra do eleitor e contra a cidadania. Exortamos os eleitores a fiscalizarem os candidatos e, constatando esse ato de corrupção, a denunciarem os envolvidos ao Ministério Público e à Justiça Eleitoral, conforme prevê a Lei 9840, uma conquista da mobilização popular há quase duas décadas.

A Igreja Católica não assume nenhuma candidatura, mas incentiva os cristãos leigos e leigas, que têm vocação para a militância político-partidária, a se lançarem candidatos. No discernimento dos melhores candidatos, tenha-se em conta seu compromisso com a vida, com a justiça, com a ética, com a transparência, com o fim da corrupção, além de seu testemunho na comunidade de fé. Promova-se a renovação de candidaturas, pondo fim ao carreirismo político. Por isso, exortamos as comunidades a aprofundarem seu conhecimento sobre a vida política de seu município e do país, fazendo sempre a opção por aqueles que se proponham a governar a partir dos pobres, não se rendendo à lógica da economia de mercado cujo centro é o lucro e não a pessoa. 

Após as eleições, é importante a comunidade se organizar para acompanhar os mandatos dos eleitos. Os cristãos leigos e leigas, inspirados na fé que vem do Evangelho, devem se preparar para assumir, de acordo com sua vocação, competência e capacitação, serviços nos Conselhos de participação popular, como o da Educação, Saúde, Criança e Adolescente, Juventude, Assistência Social etc. Devem, igualmente, acompanhar as reuniões das Câmaras Municipais onde se votam projetos e leis para o município. Estejam atentos à elaboração e implementação de políticas públicas que atendam especialmente às populações mais vulneráveis como crianças, jovens, idosos, migrantes, indígenas, quilombolas e os pobres. 

Confiamos que nossas comunidades saberão se organizar para tornar as eleições municipais ocasião de fortalecimento da democracia que deve ser cada vez mais participativa. Nosso horizonte seja sempre a construção do bem comum.  

Que Nossa Senhora Aparecida, Mãe e Padroeira dos brasileiros, nos acompanhe e auxilie no exercício de nossa cidadania a favor do Brasil e de nossos municípios, onde começa a democracia.

Aparecida - SP, 13 de abril de 2016

Dom Sergio da Rocha
Arcebispo de Brasília
Presidente da CNBB

Dom Murilo Sebastião Ramos Krieger, SCJ
Arcebispo São Salvador da Bahia
Vice-Presidente da CNBB

Dom Leonardo Ulrich Steiner
Bispo Auxiliar de Brasília
Secretário-Geral da CNBB


1. Cf. CNBB – Doc. 40 - Igreja Comunhão e Missão – n. 184.
2. CNBB – Doc. 91 Por uma reforma do estado com participação democrática, n. 40.
3. Idem.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

Formação: direito dos cristãos leigos, dever da Igreja

Pe. Geraldo Martins

Nos encontros e assembleias pastorais realizados pela Igreja, um pedido recorrente é que se dê atenção à formação dos cristãos leigos e leigos. E faz todo sentido. Afinal, como evangelizar eficazmente sem uma preparação e uma capacitação adequadas, considerando as rápidas mudanças pelas quais passa a sociedade?! Os desafios hoje são inúmeros e dizem respeito às mais diversas áreas. Pensemos, por exemplo, na bioética, da política, na cultura, na comunicação, nos direitos humanos. Quanta mudança e quanta novidade!
A formação, direito dos cristãos leigos, deve ser continuada, permanente, porém, sem a pretensão de ter todas as respostas para tudo. Cabe à paróquia o dever e a responsabilidade de elaborar um plano de formação para seus agentes de pastoral, ainda que simples e modesto. Teologia, bíblia, moral, liturgia, catequese, comunicação, doutrina social da Igreja, missão são alguns dos conteúdos que devem constar nesse plano.
A participação dos agentes é fundamental, afinal, eles são os destinatários primeiros da formação. Lamentavelmente, muitas vezes, a formação é oferecida, mas os membros de nossas pastorais e serviços eclesiais simplesmente não participam. Alguns por razões que justificam, outros por desinteresse ou negligência. É uma pena que seja assim em muitos lugares.
Com o propósito de capacitar ainda mais nossos agentes e de favorecer a integração de nossas equipes e pastorais, o Conselho de Pastoral de nossa paróquia aprovou, no final do ano passado, um pequeno projeto de formação para 2016. Agrupamos nossas comunidades em duas áreas. A Área 1 é composta pelas comunidades de Passagem (aí incluídos os Setores Nossa Senhora da Conceição e Santa Rita), Vila São Vicente e Camargos. Já a Área 2 reúne as comunidades de Vargem (incluído Palmital) e Pombal.
Ao longo deste ano, teremos quatro encontros em cada uma destas Áreas nos meses de janeiro, abril, julho e setembro. Estudaremos, respectivamente, sobre a Campanha da Fraternidade, liturgia, catequese e bíblia. No mês de maio, a formação é para toda a paróquia quando reuniremos os agentes de todas as comunidades no Salão Paroquial. No mês de novembro, convocaremos novamente os agentes para um dia de retiro, afinal, é preciso cuidar de nossa espiritualidade para exercermos melhor a missão que Deus nos confiou.
Para cuidar de nosso plano de formação, foi constituída uma equipe que se responsabilizará por toda a logística. A ela caberá, dentre outras coisas, pensar o conteúdo, convidar o(a) assessor(a), preparar o local, convocar os agentes, prever o material necessário. Claro que essa formação paroquial não dispensa que cada equipe pastoral tenha seus encontros regulares e sua formação específica.

O sonho de um laicato maduro e consciente, cuja atuação vá além dos limites da Igreja e se dê também no mundo social, político e econômico (cf. EG 102) passa necessariamente pela formação. Recorda-nos o papa Francisco: “A formação dos leigos e a evangelização das categorias profissionais e intelectuais constituem um importante desafio pastoral” (EG 102). Deus nos ajude a enfrentar e vencer este desafio. 

segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

Juventude, nossa prioridade.

Pe. Geraldo Martins

Nossa paróquia começa 2016 com dois novos projetos que dão continuidade às decisões de nossa assembleia paroquial de pastoral, realizada no final de 2014. Aprovados pelo Conselho Paroquial de Pastoral (CPP) em reunião última reunião do ano passado (12 de dezembro), os projetos são simples e pretendem ajudar as lideranças da paróquia a crescer em seu compromisso como Evangelho. 

Apresento o primeiro deles que é voltado para a juventude, nossa prioridade para este ano a exemplo do que ocorreu com a família no ano passado. É claro que continuaremos a cuidar da família, fortalecendo a Pastoral Familiar e aperfeiçoando sua organização e atuação, bem como outras iniciativas voltadas para a família. Precisamos avançar muito ainda no cuidado com nossas famílias.

Nossa meta, em relação às juventudes, é apresentar Jesus Cristo para os jovens de modo que venham se apaixonar por ele. O primeiro passo, que já está sendo dado, é realizar uma pesquisa junto aos jovens para conhecer minimamente quem são, onde estão e o que desejam. Jovens de nossos dois grupos – JUM e UFC – vão a todas as comunidades ouvir os jovens. Será uma excelente oportunidade de fazer contatos com as juventudes de nossa paróquia e apresentar-lhes nosso desejo de tê-las conosco para atuar com vistas a construir o Reino de Deus.

O segundo passo será nos meses de fevereiro e março quando realizaremos um encontro com os jovens em cada uma das cinco comunidades da paróquia. Neste encontro apresentaremos nossa proposta de evangelização para a juventude inspirados na pesquisa que estamos realizando neste mês de janeiro. A ideia é construir junto com os próprios jovens uma proposta que lhes responda os anseios e desejos. Eles deverão ser protagonistas nesse processo. O importante é que eles assumam um compromisso com Jesus Cristo e, consequentemente, com a Igreja e com a transformação do mundo.

O terceiro passo se dará em maio quando acontecerá nosso primeiro encontro paroquial para a juventude. Nesta reunião apontaremos o caminho que queremos trilhar com nossas juventudes. Temos consciência de que há muitos jovens com vontade de atuar em nossa paróquia e de mostrar seu rosto para nossa comunidade. Ficaremos muito felizes se, ao longo desse processo, conseguirmos multiplicar nossos grupos de jovens, articulando-os entre si a fim de que mostrem sua força e capacidade de se fazer presente na Igreja e na sociedade.

Outra atividade importante está prevista para 31 de julho quando teremos, em nível arquidiocesano, o jubileu da juventude. Será uma grande concentração de jovens, em lugar a ser ainda definido, em sintonia com a Jornada Mundial da Juventude que se encerrará nesse dia na Polônia. O jubileu terá, ainda, a marca do Ano Santo da Misericórdia, proclamado pelo papa Francisco. 

A partir daí, outras atividades se seguirão como a Semana do Estudante e a festa de Nossa Senhora da Glória (agosto), o despertar vocacional (setembro) e o Dia Nacional da Juventude (outubro). Tudo isso exigirá de todos nós muito empenho, dedicação, organização, criatividade. Nossa meta é fazer os jovens sentirem o profundo amor que Jesus tem por eles. Levá-los a um encontro real, verdadeiro, transformador com Cristo é condição fundamental para que os jovens se coloquem no caminho da vida e da felicidade.

Embora o trabalho se dirija aos jovens, todos somos chamados a participar apoiando e incentivado a juventude a dar uma resposta positiva à nossa proposta. O engajamento de todas as equipes pastorais nesse projeto é condição imprescindível para seu êxito. Afinal, somos uma família e temos responsabilidades uns pelos outros. 

Anime-nos a palavra do poeta: “O rosto de Deus é jovem também/ E o sonho mais lindo é ele quem tem/ Deus não envelhece, tampouco morreu/ Continua vivo no povo que é seu/ Se a juventude viesse a faltar/ O rosto de Deus iria mudar” (Jorge Trevisol).

domingo, 10 de janeiro de 2016

A vida acima do lucro

Pe. Geraldo Martins

A tragédia causada pelo rompimento da barragem de Fundão, da Samarco Mineradora, em Bento Rodrigues, distrito de Mariana, remete-nos à Encíclica do papa Francisco – Laudato Si – sobre o “Cuidado da casa comum”. Neste documento, o papa chama nossa atenção para a destruição do planeta por causa da ação humana que, “a serviço do sistema financeiro e do consumismo, faz com que a terra onde vivemos se torne realmente menos rica e bela, cada vez mais limitada e cinzenta” (LS, 34).

A atividade mineradora se coloca nesse contexto na medida em que é regida por leis que favorecem o lucro astronômico das empresas ao preço da degradação do meio ambiente e do desrespeito aos direitos das populações atingidas pela mineração.

Em 2013, a CNBB publicou uma carta aberta sobre a mineração no país, mostrando sua preocupação com os impactos causados por esta atividade tão cobiçada. “A exploração mineral é uma atividade que provoca impactos em povos, comunidades e territórios, gerando conflitos em toda sua cadeia: remoções forçadas de famílias e comunidades; poluição das nascentes, dos rios e do ar; degradação das condições de saúde; desmatamento; acidentes de trabalho; falsas promessas de prosperidade; concentração privada da riqueza e distribuição pública dos impactos; criminalização dos movimentos sociais; descaracterização e desagregação sociocultural”.

Diante da tragédia em Bento Rodrigues, a Conferência dos Bispos volta a se pronunciar sobre o tema e denuncia a sede de lucro das empresas em detrimento da vida em todas as suas dimensões. Afirma a nota da CNBB: “As vidas dos trabalhadores e moradores tragadas pela lama, bem como a fauna e flora destruídas exigem profunda reflexão acerca do desenvolvimento em curso no país. É preciso colocar um limite ao lucro a todo custo que, muitas vezes, faz negligenciar medidas de segurança e proteção à vida das pessoas e do planeta. Com efeito, lembra-nos o Papa Francisco que “o princípio da maximização do lucro, que tende a isolar-se de todas as outras considerações, é uma distorção conceitual da economia” (Laudato Si, 195)”.

Vários municípios de nossa Arquidiocese convivem, há décadas, com empresas mineradoras que somam enormes lucros. Não obstante os municípios serem beneficiados com os tributos advindos desta atividade, o ônus é muito maior e tem impacto tanto na vida das pessoas quanto no meio ambiente. Preocupado com isso, em 2013, nosso arcebispo, Dom Geraldo Lyrio Rocha, divulgou uma declaração em que revela sua preocupação com os impactos da atividade mineradora e industrial na arquidiocese.

Vale a pena recordar um trecho desta declaração nesse momento. “Toda atividade mineradora e industrial deve ter como parâmetro o bem estar da pessoa humana, buscando a superação dos impactos negativos sobre a vida em todas as suas formas e a preservação do planeta, com respeito ao meio ambiente, à biodiversidade e ao uso responsável das riquezas naturais. É preciso empregar todos os esforços para manter viva a natureza, preservar os mananciais e as nascentes, garantir o habitat dos seres vivos e defender as espécies ameaçadas de extinção”.

quarta-feira, 4 de novembro de 2015

Família e evangelização

Pe. Geraldo Martins

Os olhos do mundo se voltaram para Roma, no mês de outubro, acompanhando, como há muito não acontecia, o Sínodo que discutiu a vocação da família na Igreja e no mundo. Durante vinte dias, 270 bispos, arcebispos e cardeais do mundo inteiro, chamados padres sinodais, reunidos com o papa, debateram intensamente a realidade da família. Aos padres sinodais somou-se mais de uma centena de peritos, convidados e observadores que também ajudaram a colocar sobre a mesa as riquezas e as fraquezas desta instituição que sustenta a sociedade.

A cobertura feita pela grande mídia, por um lado, nos ajudou a tomar conhecimento do assunto discutido pelos padres sinodais. Por outro lado, sua atenção quase obcecada por um único ponto – a participação dos divorciados na comunhão eucarística e a união homoafetiva - nos dá uma visão míope desta reunião convocada pelo papa que discutiu, ampla e profundamente, inúmeras questões que envolvem a família. Daí a necessidade de buscarmos em outras fontes e não ficarmos apenas com o que foi veiculado na grande imprensa.

É claro que o Sínodo não esgotou todos os assuntos ligados à família e tampouco encontrou soluções para todas as suas dificuldades e dúvidas. De acordo com o papa Francisco, o Sínodo ajudou a compreender a importância da família e do matrimônio e deu “provas da vitalidade da Igreja Católica, que não tem medo de abalar as consciências anestesiadas ou sujar as mãos discutindo, animada e francamente, sobre a família”.

Ainda segundo o papa, o Sínodo serviu para abrandar os corações que costumam “se sentar na cátedra de Moisés e julgar, às vezes com superioridade e superficialidade, os casos difíceis e as famílias feridas”, além de ter sido ocasião para reafirmar que ”a Igreja é Igreja dos pobres em espírito e dos pecadores à procura do perdão”.

É bonito e nos enche de esperança ouvir o papa dizer que “o primeiro dever da Igreja não é aplicar condenações ou anátemas, mas proclamar a misericórdia de Deus, chamar à conversão e conduzir todos os homens à salvação do Senhor (cf. Jo 12, 44-50)”.

Francisco nos leva a uma profunda reflexão quando afirma que “os verdadeiros defensores da doutrina não são os que defendem a letra, mas o espírito; não as ideias, mas o homem; não as fórmulas, mas a gratuidade do amor de Deus e do seu perdão”. Com isso, ele não quer negar ou diminuir a importância das normas, “mas exaltar a grandeza do verdadeiro Deus, que não nos trata segundo os nossos méritos nem segundo as nossas obras, mas unicamente segundo a generosidade sem limites da sua Misericórdia”.

Um texto final foi produzido pelos padres sinodais que servirá de base para o pronunciamento oficial do papa que deverá ser feito em forma de documento. A expectativa é grande e, a julgar pelos dois documentos que publicou (Alegria do Evangelho e Laudato Si), além de seus conhecidos pronunciamentos, podemos esperar um documento marcadamente pastoral, profundamente iluminador e corajosamente profético.

terça-feira, 15 de setembro de 2015

«Confiar em Jesus misericordioso, como Maria: “Fazei o que Ele vos disser” (Jo 2, 5)»

MENSAGEM DE SUA SANTIDADE FRANCISCO PARA A XXIV JORNADA MUNDIAL DO DOENTE
(Terra Santa - Nazaré, 11 de Fevereiro de 2016)





Amados irmãos e irmãs!

A XXIV Jornada Mundial do Doente dá-me ocasião para me sentir particularmente próximo de vós, queridas pessoas doentes, e de quantos cuidam de vós.

Dado que a referida Jornada vai ser celebrada de maneira solene na Terra Santa, proponho que, neste ano, se medite a narração evangélica das bodas de Caná (Jo 2, 1-11), onde Jesus realizou o primeiro milagre a pedido de sua Mãe. O tema escolhido – Confiar em Jesus misericordioso, como Maria: «Fazei o que Ele vos disser» (Jo 2, 5) – insere-se muito bem no âmbito do Jubileu Extraordinário da Misericórdia. A celebração eucarística central da Jornada terá lugar a 11 de Fevereiro de 2016, memória litúrgica de Nossa Senhora de Lurdes, e precisamente em Nazaré, onde «o Verbo Se fez homem e veio habitar connosco» (Jo 1, 14). Em Nazaré, Jesus deu início à sua missão salvífica, aplicando a Si mesmo as palavras do profeta Isaías, como nos refere o evangelista Lucas: «O Espírito do Senhor está sobre mim, porque me ungiu para anunciar a Boa-Nova aos pobres; enviou-me a proclamar a libertação aos cativos e, aos cegos, a recuperação da vista; a mandar em liberdade os oprimidos, a proclamar um ano favorável da parte do Senhor» (4, 18-19).

A doença, sobretudo se grave, põe sempre em crise a existência humana e suscita interrogativos que nos atingem em profundidade. Por vezes, o primeiro momento pode ser de rebelião: Porque havia de acontecer precisamente a mim? Podemos sentir-nos desesperados, pensar que tudo está perdido, que já nada tem sentido...

Nestas situações, a fé em Deus se, por um lado, é posta à prova, por outro, revela toda a sua força positiva; e não porque faça desaparecer a doença, a tribulação ou os interrogativos que daí derivam, mas porque nos dá uma chave para podermos descobrir o sentido mais profundo daquilo que estamos a viver; uma chave que nos ajuda a ver como a doença pode ser o caminho para chegar a uma proximidade mais estreita com Jesus, que caminha ao nosso lado, carregando a Cruz. E esta chave é-nos entregue pela Mãe, Maria, perita deste caminho.

Nas bodas de Caná, Maria é a mulher solícita que se apercebe de um problema muito importante para os esposos: acabou o vinho, símbolo da alegria da festa. Maria dá-Se conta da dificuldade, de certa maneira assume-a e, com discrição, age sem demora. Não fica a olhar e, muito menos, se demora a fazer juízos, mas dirige-Se a Jesus e apresenta-Lhe o problema como é: «Não têm vinho» (Jo 2, 3). E quando Jesus Lhe faz notar que ainda não chegou o momento de revelar-Se (cf. v. 4), Maria diz aos serventes: «Fazei o que Ele vos disser» (v. 5). Então Jesus realiza o milagre, transformando uma grande quantidade de água em vinho, um vinho que logo se revela o melhor de toda a festa. Que ensinamento podemos tirar, para a Jornada Mundial do Doente, do mistério das bodas de Caná?

O banquete das bodas de Caná é um ícone da Igreja: no centro, está Jesus misericordioso que realiza o sinal; em redor d’Ele, os discípulos, as primícias da nova comunidade; e, perto de Jesus e dos seus discípulos, está Maria, Mãe providente e orante. Maria participa na alegria do povo comum, e contribui para a aumentar; intercede junto de seu Filho a bem dos esposos e de todos os convidados. E Jesus não rejeitou o pedido de sua Mãe. Quanta esperança há neste acontecimento para todos nós! Temos uma Mãe de olhar vigilante e bom, como seu Filho; o coração materno e repleto de misericórdia, como Ele; as mãos que desejam ajudar, como as mãos de Jesus que dividiam o pão para quem tinha fome, que tocavam os doentes e os curavam. Isto enche-nos de confiança, fazendo-nos abrir à graça e à misericórdia de Cristo. A intercessão de Maria faz-nos experimentar a consolação, pela qual o apóstolo Paulo bendiz a Deus: «Bendito seja Deus e Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo, o Pai das misericórdias e o Deus de toda consolação! Ele nos consola em toda a nossa tribulação, para que também nós possamos consolar aqueles que estão em qualquer tribulação, mediante a consolação que nós mesmos recebemos de Deus. Na verdade, assim como abundam em nós os sofrimentos de Cristo, também, por meio de Cristo, é abundante a nossa consolação» (2 Cor  1, 3-5). Maria é a Mãe «consolada», que consola os seus filhos.

Em Caná, manifestam-se os traços distintivos de Jesus e da sua missão: é Aquele que socorre quem está em dificuldade e passa necessidade. Com efeito, no seu ministério messiânico, curará a muitos de doenças, enfermidades e espíritos malignos, dará vista aos cegos, fará caminhar os coxos, restituirá saúde e dignidade aos leprosos, ressuscitará os mortos, e aos pobres anunciará a boa nova (cf. Lc 7, 21-22). E, durante o festim nupcial, o pedido de Maria – sugerido pelo Espírito Santo ao seu coração materno – fez revelar-se não só o poder messiânico de Jesus, mas também a sua misericórdia.

Na solicitude de Maria, reflecte-se a ternura de Deus. E a mesma ternura torna-se presente na vida de tantas pessoas que acompanham os doentes e sabem individuar as suas necessidades, mesmo as mais subtis, porque vêem com um olhar cheio de amor. Quantas vezes uma mãe à cabeceira do filho doente, ou um filho que cuida do seu progenitor idoso, ou um neto que acompanha o avô ou a avó, depõe a sua súplica nas mãos de Nossa Senhora! Para nossos familiares doentes, pedimos, em primeiro lugar, a saúde; o próprio Jesus manifestou a presença do Reino de Deus precisamente através das curas. «Ide contar a João o que vedes e ouvis: os cegos vêem e os coxos andam; os leprosos ficam limpos e os surdos ouvem, os mortos ressuscitam» (Mt 11, 4-5). Mas o amor, animado pela fé, leva-nos a pedir, para eles, algo maior do que a saúde física: pedimos uma paz, uma serenidade da vida que parte do coração e que é dom de Deus, fruto do Espírito Santo que o Pai nunca nega a quantos Lho pedem com confiança.

No episódio de Caná, além de Jesus e sua Mãe, temos aqueles que são chamados «serventes» e que d’Ela recebem esta recomendação: «Fazei o que Ele vos disser» (Jo 2, 5). Naturalmente, o milagre dá-se por obra de Cristo; contudo Ele quer servir-Se da ajuda humana para realizar o prodígio. Poderia ter feito aparecer o vinho directamente nas vasilhas. Mas quer valer-Se da colaboração humana e pede aos serventes que as encham de água. Como é precioso e agradável aos olhos de Deus ser serventes dos outros! Mais do que qualquer outra coisa, é isto que nos faz semelhantes a Jesus, que «não veio para ser servido, mas para servir» (Mc 10, 45). Aqueles personagens anónimos do Evangelho dão-nos uma grande lição. Não só obedecem, mas fazem-no generosamente: enchem as vasilhas até cima (cf. Jo 2, 7). Confiam na Mãe, fazendo, imediatamente e bem, o que lhes é pedido, sem lamentos nem cálculos.

Nesta Jornada Mundial do Doente, podemos pedir a Jesus misericordioso, pela intercessão de Maria, Mãe d’Ele e nossa, que nos conceda a todos a mesma disponibilidade ao serviço dos necessitados e, concretamente, dos nossos irmãos e irmãs doentes. Por vezes, este serviço pode ser cansativo, pesado, mas tenhamos a certeza de que o Senhor não deixará de transformar o nosso esforço humano em algo de divino. Também nós podemos ser mãos, braços, corações que ajudam a Deus a realizar os seus prodígios, muitas vezes escondidos. Também nós, sãos ou doentes, podemos oferecer as nossas canseiras e sofrimentos como aquela água que encheu as vasilhas nas bodas de Caná e foi transformada no vinho melhor. Tanto com a ajuda discreta de quem sofre, como suportando a doença, carrega-se aos ombros a cruz de cada dia e segue-se o Mestre (cf. Lc 9, 23); e, embora o encontro com o sofrimento seja sempre um mistério, Jesus ajuda-nos a desvendar o seu sentido.

Se soubermos seguir a voz d’Aquela que recomenda, a nós também, «fazei o que Ele vos disser», Jesus transformará sempre a água da nossa vida em vinho apreciado. Assim, esta Jornada Mundial do Doente, celebrada solenemente na Terra Santa, ajudará a tornar realidade os votos que formulei na Bula de proclamação do Jubileu Extraordinário da Misericórdia: «Possa este Ano Jubilar, vivido na misericórdia, favorecer o encontro com [o judaísmo e o islamismo] e com as outras nobres tradições religiosas; que ele nos torne mais abertos ao diálogo, para melhor nos conhecermos e compreendermos; elimine todas as formas de fechamento e desprezo e expulse todas as formas de violência e discriminação» (Misericordiae Vultus, 23). Cada hospital ou casa de cura pode ser sinal visível e lugar para promover a cultura do encontro e da paz, onde a experiência da doença e da tribulação, bem como a ajuda profissional e fraterna contribuam para superar qualquer barreira e divisão.

Exemplo disto são as duas Irmãs canonizadas no passado mês de Maio: Santa Maria Alfonsina Danil Ghattas e Santa Maria de Jesus Crucificado Baouardy, ambas filhas da Terra Santa. A primeira foi uma testemunha de mansidão e unidade, dando claro testemunho de como é importante tornarmo-nos responsáveis uns pelos outros, vivermos ao serviço uns dos outros. A segunda, mulher humilde e analfabeta, foi dócil ao Espírito Santo, tornando-se instrumento de encontro com o mundo muçulmano.

A todos aqueles que estão ao serviço dos doentes e atribulados, desejo que vivam animados pelo espírito de Maria, Mãe da Misericórdia. «A doçura do seu olhar nos acompanhe neste Ano Santo, para podermos todos nós redescobrir a alegria da ternura de Deus» (ibid., 24) e levá-la impressa nos nossos corações e nos nossos gestos. Confiamos à intercessão da Virgem as ânsias e tribulações, juntamente com as alegrias e consolações, dirigindo-Lhe a nossa oração para que Ela pouse sobre nós o seu olhar misericordioso, especialmente nos momentos de sofrimento, e nos torne dignos de contemplar, hoje e para sempre, o Rosto da misericórdia que é seu Filho Jesus.

Acompanho esta súplica por todos vós com a minha Bênção Apostólica.

Vaticano, 15 de Setembro – Memória de Nossa Senhora das Dores – do ano 2015.

Francisco