terça-feira, 25 de outubro de 2016

Instrução Ad resurgendum cum Christo a propósito da sepultura dos defuntos e da conservação das cinzas da cremação

1. Para ressuscitar com Cristo, é necessário morrer com Cristo, isto é, “exilarmo-nos do corpo para irmos habitar junto do Senhor” (2 Cor 5, 8). Com a Instrução Piam et constantem, de 5 de Julho de 1963, o então chamado Santo Ofício, estabeleceu que “seja fielmente conservado o costume de enterrar os cadáveres dos fiéis”, acrescentando, ainda, que a cremação não é “em si mesma contrária à religião cristã”. Mais ainda, afirmava que não devem ser negados os sacramentos e as exéquias àqueles que pediram para ser cremados, na condição de que tal escolha não seja querida “como a negação dos dogmas cristãos, ou num espírito sectário, ou ainda, por ódio contra a religião católica e à Igreja”.[1]Esta mudança da disciplina eclesiástica foi consignada no Código de Direito Canônico (1983) e no Código dos Cânones da Igreja Oriental (1990).

Entretanto, a prática da cremação difundiu-se bastante em muitas Nações e, ao mesmo tempo, difundem-se, também, novas ideias contrastantes com a fé da Igreja. Depois de a seu tempo se ter ouvido a Congregação para o Culto Divino e Disciplina dos Sacramentos, o Pontifício Conselho para os Textos Legislativos e numerosas Conferências Episcopais e Sinodais dos bispos das Igrejas Orientais, a Congregação para a Doutrina da Fé considerou oportuno publicar uma nova Instrução, a fim de repor as razões doutrinais e pastorais da preferência a dar à sepultura dos corpos e, ao mesmo tempo, dar normas sobre o que diz respeito à conservação das cinzas no caso da cremação.

2. A ressurreição de Jesus é a verdade culminante da fé cristã, anunciada come parte fundamental do Mistério pascal desde as origens do cristianismo: “Transmiti-vos em primeiro lugar o que eu mesmo recebi: Cristo morreu pelos nossos pecados, segundo as Escrituras; foi sepultado e ressuscitou ao terceiro dia, segundo as Escrituras, e apareceu a Pedro e depois aos Doze” (1 Cor 15, 3-5).

Pela sua morte e ressurreição, Cristo libertou-nos do pecado e deu-nos uma vida nova: “como Cristo ressuscitou dos mortos pela glória do Pai, também nós vivemos uma vida nova” (Rm 6, 4). Por outro lado, Cristo ressuscitado é princípio e fonte da nossa ressurreição futura: “Cristo ressuscitou dos mortos, como primícias dos que morreram….; do mesmo modo que em Adão todos morreram, assim também em Cristo todos serão restituídos à vida” (1 Cor 15, 20-22).

Se é verdade que Cristo nos ressuscitará “no último dia”, é também verdade que, de certa forma já ressuscitamos com Cristo. De fato, pelo Batismo, estamos imersos na morte e ressurreição de Cristo e sacramentalmente assimilados a Ele: “Sepultados com Ele no batismo, também com Ele fostes ressuscitados pela fé que tivestes no poder de Deus, que O ressuscitou dos mortos” (Col 2, 12). Unidos a Cristo pelo Batismo, participamos já, realmente, na vida de Cristo ressuscitado (cf. Ef 2, 6).

Graças a Cristo, a morte cristã tem um significado positivo. A liturgia da Igreja reza: “Para os que crêem em vós, Senhor, a vida não acaba, apenas se transforma; e, desfeita a morada deste exílio terrestre, adquirimos no céu uma habitação eterna”.[2]Na morte, o espírito separa-se do corpo, mas na ressurreição Deus torna a dar vida incorruptível ao nosso corpo transformado, reunindo-o, de novo, ao nosso espírito. Também nos nossos dias a Igreja é chamada a anunciar a fé na ressurreição: “A ressurreição dos mortos é a fé dos cristãos: acreditando nisso somos o que professamos”.[3]

3. Seguindo a antiga tradição cristã, a Igreja recomenda insistentemente que os corpos dos defuntos sejam sepultados no cemitério ou num lugar sagrado.[4]

Ao lembrar a morte, sepultura e ressurreição do Senhor, mistério à luz do qual se manifesta o sentido cristão da morte,[5]a inumação é, antes de mais, a forma mais idônea para exprimir a fé e a esperança na ressurreição corporal.[6]

A Igreja, que como Mãe acompanhou o cristão durante a sua peregrinação terrena, oferece ao Pai, em Cristo, o filho da sua graça e entrega à terra os restos mortais na esperança de que ressuscitará para a glória.[7]

Enterrando os corpos dos fiéis defuntos, a Igreja confirma a fé na ressurreição da carne,[8]e deseja colocar em relevo a grande dignidade do corpo humano como parte integrante da pessoa da qual o corpo condivide a história.[9] Não pode, por isso, permitir comportamentos e ritos que envolvam concepções errôneas sobre a morte: seja o aniquilamento definitivo da pessoa; seja o momento da sua fusão com a Mãe natureza ou com o universo; seja como uma etapa no processo da reencarnação; seja ainda, como a libertação definitiva da “prisão” do corpo.

Por outro lado, a sepultura nos cemitérios ou noutros lugares sagrados responde adequadamente à piedade e ao respeito devido aos corpos dos fiéis defuntos, que, mediante o Batismo, se tornaram templo do Espírito Santo e dos quais, “como instrumentos e vasos, se serviu santamente o Espírito Santo para realizar tantas boas obras”.[10]

O justo Tobias é elogiado pelos méritos alcançados junto de Deus por ter enterrado os mortos,[11]e a Igreja considera a sepultura dos mortos como uma obra de misericórdia corporal.[12]

Ainda mais, a sepultura dos corpos dos fiéis defuntos nos cemitérios ou noutros lugares sagrados favorece a memória e a oração pelos defuntos da parte dos seus familiares e de toda a comunidade cristã, assim como a veneração dos mártires e dos santos.

Mediante a sepultura dos corpos nos cemitérios, nas igrejas ou em lugares específicos para tal, a tradição cristã conservou a comunhão entre os vivos e os mortos e opõe-se à tendência a esconder ou privatizar o acontecimento da morte e o significado que ela tem para os cristãos.

4. Onde por razões de tipo higiênico, econômico ou social se escolhe a cremação; escolha que não deve ser contrária à vontade explícita ou razoavelmente presumível do fiel defunto, a Igreja não vê razões doutrinais para impedir tal práxis; uma vez que a cremação do cadáver não toca o espírito e não impede à onipotência divina de ressuscitar o corpo. Por isso, tal fato, não implica uma razão objetiva que negue a doutrina cristã sobre a imortalidade da alma e da ressurreição dos corpos.[13]

A Igreja continua a preferir a sepultura dos corpos uma vez que assim se evidencia uma estima maior pelos defuntos; todavia, a cremação não é proibida, “a não ser que tenha sido preferida por razões contrárias à doutrina cristã”.[14]

Na ausência de motivações contrárias à doutrina cristã, a Igreja, depois da celebração das exéquias, acompanha a escolha da cremação seguindo as respectivas indicações litúrgicas e pastorais, evitando qualquer tipo de escândalo ou de indiferentismo religioso.

5. Quaisquer que sejam as motivações legítimas que levaram à escolha da cremação do cadáver, as cinzas do defunto devem ser conservadas, por norma, num lugar sagrado, isto é, no cemitério ou, se for o caso, numa igreja ou num lugar especialmente dedicado a esse fim determinado pela autoridade eclesiástica.

Desde o início os cristãos desejaram que os seus defuntos fossem objeto de orações e de memória por parte da comunidade cristã. Os seus túmulos tornaram-se lugares de oração, de memória e de reflexão. Os fiéis defuntos fazem parte da Igreja, que crê na comunhão “dos que peregrinam na terra, dos defuntos que estão levando a cabo a sua purificação e dos bem-aventurados do céu: formam todos uma só Igreja”.[15]

A conservação das cinzas num lugar sagrado pode contribuir para que não se corra o risco de afastar os defuntos da oração e da recordação dos parentes e da comunidade cristã. Por outro lado, deste modo, se evita a possibilidade de esquecimento ou falta de respeito que podem acontecer, sobretudo depois de passar a primeira geração, ou então cair em práticas inconvenientes ou supersticiosas.

6. Pelos motivos mencionados, a conservação das cinzas em casa não é consentida. Em casos de circunstâncias gravosas e excepcionais, dependendo das condições culturais de caráter local, o Ordinário, de acordo com a Conferência Episcopal ou o Sínodo dos Bispos das Igrejas Orientais, poderá autorizar a conservação das cinzas em casa. As cinzas, no entanto, não podem ser dividias entre os vários núcleos familiares e deve ser sempre assegurado o respeito e as adequadas condições de conservação das mesmas

7. Para evitar qualquer tipo de equívoco panteísta, naturalista ou niilista, não seja permitida a dispersão das cinzas no ar, na terra ou na água ou, ainda, em qualquer outro lugar. Exclui-se, ainda a conservação das cinzas cremadas sob a forma de recordação comemorativa em peças de joalharia ou em outros objetos, tendo presente que para tal modo de proceder não podem ser adotadas razões de ordem higiênica, social ou econômica a motivar a escolha da cremação.

8. No caso do defunto ter claramente manifestado o desejo da cremação e a dispersão das mesmas na natureza por razões contrárias à fé cristã, devem ser negadas as exéquias, segundo o direito.[16]

O Sumo Pontífice Francisco, na Audiência concedida ao abaixo-assinado, Cardeal Prefeito, em 18 de Março de 2016, aprovou a presente Instrução, decidida na Sessão Ordinária desta Congregação em 2 de Março de 2016, e ordenou a sua publicação.

Roma, Congregação para a Doutrina da Fé, 15 de Agosto de 2016, Solenidade da Assunção da Virgem Santa Maria.

Gerhard Card. Müller
Prefeito

+Luis F. Ladaria, S.I.
Arcebispo titular de Thibica
Secretário

[1] AAS 56 (1964), 822-823.
[2] Missal Romano, Prefácio dos Defuntos I.
[3] Tertuliano, De resurrectione carnis, 1,1: CCL 2, 921.
[4] Cf. CDC, can. 1176, § 3; can. 1205; CCIO, can. 876, § 3; can. 868.
[5] Cf. Catecismo da Igreja Católica, n. 1681.
[6] Cf. CDC, can. 1176, § 3; can. 1205; CCIO, can. 876, § 3; can. 868.
[7] Cf. 1 Cor 15,42-44; Catecismo da Igreja Católica, n. 1683.
[8] Cf. Santo Agostinho, De cura pro mortuis gerenda, 3, 5: CSEL 41, 628.
[9] Cf. Conc. Ecum. Vat. II, Constituição pastoral Gaudium et spes, n. 14.
[10] Cf. Santo Agostinho, De cura pro mortuis gerenda, 3, 5: CSEL 41, 627.
[11] Cf. Tb 2, 9; 12, 12.
[12] Cf. Catecismo da Igreja Católica, n. 2300.
[13] Cf. Suprema e Sagrada Congregação do Santo Ofício, Instrução Piam et constantem, de 5 de Julho de 1963: AAS 56 (1964), 822.
[14] CDC, can. 1176, §3; cf. CCIO, can. 876, §3.
[15] Catecismo da Igreja Católica, n. 962.

[16] CDC, can. 1184; CCIO, can. 876, § 3.

quarta-feira, 13 de abril de 2016

MENSAGEM DA CNBB PARA AS ELEIÇÕES 2016

“Quero ver o direito brotar como fonte e correr a justiça qual riacho que não seca” (Amós 5,24)



Neste ano de eleições municipais, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil – CNBB dirige ao povo brasileiro uma mensagem de esperança, ânimo e coragem. Os cristãos católicos, de maneira especial, são chamados a dar a razão de sua esperança (cf. 1Pd 3,15) nesse tempo de profunda crise pela qual passa o Brasil.

Sonhamos e nos comprometemos com um país próspero, democrático, sem corrupção, socialmente igualitário, economicamente justo, ecologicamente sustentável, sem violência discriminação e mentiras; e com oportunidades iguais para todos. Só com participação cidadã de todos os brasileiros e brasileiras é possível a realização desse sonho. Esta participação democrática começa no município onde cada pessoa mora e constrói sua rede de relações. Se quisermos transformar o Brasil, comecemos por transformar os municípios. As eleições são um dos caminhos para atingirmos essa meta.

A política, do ponto de vista ético, “é o conjunto de ações pelas quais os homens buscam uma forma de convivência entre indivíduos, grupos, nações que ofereçam condições para a realização do bem comum”. Já do ponto de vista da organização, a política é o exercício do poder e o esforço por conquistá-lo1, a fim de que seja exercido na perspectiva do serviço.

Os cristãos leigos e leigas não podem “abdicar da participação na política” (Christifideles Laici, 42). A eles cabe, de maneira singular, a exigência do Evangelho de construir o bem comum na perspectiva do Reino de Deus. Contribui para isso a participação consciente no processo eleitoral, escolhendo e votando em candidatos honestos e competentes. Associando fé e vida, a cidadania não se esgota no direito-dever de votar, mas se dá também no acompanhamento do mandato dos eleitos.

As eleições municipais têm uma atração e uma força próprias pela proximidade dos candidatos com os eleitores. Se, por um lado, isso desperta mais interesse e facilita as relações, por outro, pode levar a práticas condenáveis como a compra e venda de votos, a divisão de famílias e da comunidade. Na política, é fundamental respeitar as diferenças e não fazer delas motivo para inimizades ou animosidades que desemboquem em violência de qualquer ordem.

Para escolher e votar bem é imprescindível conhecer, além dos programas dos partidos, os candidatos e sua proposta de trabalho, sabendo distinguir claramente as funções para as quais se candidatam. Dos prefeitos, no poder executivo, espera-se “conduta ética nas ações públicas, nos contratos assinados, nas relações com os demais agentes políticos e com os poderes econômicos”2. Dos legisladores, os vereadores, requer-se “uma ação correta de fiscalização e legislação que não passe por uma simples presença na bancada de sustentação ou de oposição ao executivo”3.

É fundamental considerar o passado do candidato, sua conduta moral e ética e, se já exerce algum cargo político, conhecer sua atuação na apresentação e votação de matérias e leis a favor do bem comum. A Lei da Ficha Limpa há de ser, neste caso, o instrumento iluminador do eleitor para barrar candidatos de ficha suja. 

Uma boa maneira de conhecer os candidatos e suas propostas é promover debates com os concorrentes. Em muitos casos cabe propor lhes a assinatura de cartas-compromisso em relação a alguma causa relevante para a comunidade como, por exemplo, a defesa do direito de crianças e adolescentes. Pode ser inovador e eficaz elaborar projetos de lei, com a ajuda de assessores, e solicitar a adesão de candidatos no sentido de aprovar os projetos de lei tanto para o executivo quanto para o legislativo.

É preciso estar atento aos custos das campanhas. O gasto exorbitante, além de afrontar os mais pobres, contradiz o compromisso com a sobriedade e a simplicidade que deveria ser assumido por candidatos e partidos. Cabe aos eleitores observar as fontes de arrecadação dos candidatos, bem como sua prestação de contas. A lei que proíbe o financiamento de campanha por empresas, aplicada pela primeira vez nessas eleições, é um dos passos que permitem devolver ao povo o protagonismo eleitoral, submetido antes ao poder econômico. Além disso, estanca uma das veias mais eficazes de corrupção, como atestam os escândalos noticiados pela imprensa. Da mesma forma, é preciso combater sistematicamente a vergonhosa prática de “Caixa 2”, tão comum nas campanhas eleitorais.

A compra e venda de votos e o uso da máquina administrativa nas campanhas constituem crime eleitoral que atenta contra a honra do eleitor e contra a cidadania. Exortamos os eleitores a fiscalizarem os candidatos e, constatando esse ato de corrupção, a denunciarem os envolvidos ao Ministério Público e à Justiça Eleitoral, conforme prevê a Lei 9840, uma conquista da mobilização popular há quase duas décadas.

A Igreja Católica não assume nenhuma candidatura, mas incentiva os cristãos leigos e leigas, que têm vocação para a militância político-partidária, a se lançarem candidatos. No discernimento dos melhores candidatos, tenha-se em conta seu compromisso com a vida, com a justiça, com a ética, com a transparência, com o fim da corrupção, além de seu testemunho na comunidade de fé. Promova-se a renovação de candidaturas, pondo fim ao carreirismo político. Por isso, exortamos as comunidades a aprofundarem seu conhecimento sobre a vida política de seu município e do país, fazendo sempre a opção por aqueles que se proponham a governar a partir dos pobres, não se rendendo à lógica da economia de mercado cujo centro é o lucro e não a pessoa. 

Após as eleições, é importante a comunidade se organizar para acompanhar os mandatos dos eleitos. Os cristãos leigos e leigas, inspirados na fé que vem do Evangelho, devem se preparar para assumir, de acordo com sua vocação, competência e capacitação, serviços nos Conselhos de participação popular, como o da Educação, Saúde, Criança e Adolescente, Juventude, Assistência Social etc. Devem, igualmente, acompanhar as reuniões das Câmaras Municipais onde se votam projetos e leis para o município. Estejam atentos à elaboração e implementação de políticas públicas que atendam especialmente às populações mais vulneráveis como crianças, jovens, idosos, migrantes, indígenas, quilombolas e os pobres. 

Confiamos que nossas comunidades saberão se organizar para tornar as eleições municipais ocasião de fortalecimento da democracia que deve ser cada vez mais participativa. Nosso horizonte seja sempre a construção do bem comum.  

Que Nossa Senhora Aparecida, Mãe e Padroeira dos brasileiros, nos acompanhe e auxilie no exercício de nossa cidadania a favor do Brasil e de nossos municípios, onde começa a democracia.

Aparecida - SP, 13 de abril de 2016

Dom Sergio da Rocha
Arcebispo de Brasília
Presidente da CNBB

Dom Murilo Sebastião Ramos Krieger, SCJ
Arcebispo São Salvador da Bahia
Vice-Presidente da CNBB

Dom Leonardo Ulrich Steiner
Bispo Auxiliar de Brasília
Secretário-Geral da CNBB


1. Cf. CNBB – Doc. 40 - Igreja Comunhão e Missão – n. 184.
2. CNBB – Doc. 91 Por uma reforma do estado com participação democrática, n. 40.
3. Idem.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

Formação: direito dos cristãos leigos, dever da Igreja

Pe. Geraldo Martins

Nos encontros e assembleias pastorais realizados pela Igreja, um pedido recorrente é que se dê atenção à formação dos cristãos leigos e leigos. E faz todo sentido. Afinal, como evangelizar eficazmente sem uma preparação e uma capacitação adequadas, considerando as rápidas mudanças pelas quais passa a sociedade?! Os desafios hoje são inúmeros e dizem respeito às mais diversas áreas. Pensemos, por exemplo, na bioética, da política, na cultura, na comunicação, nos direitos humanos. Quanta mudança e quanta novidade!
A formação, direito dos cristãos leigos, deve ser continuada, permanente, porém, sem a pretensão de ter todas as respostas para tudo. Cabe à paróquia o dever e a responsabilidade de elaborar um plano de formação para seus agentes de pastoral, ainda que simples e modesto. Teologia, bíblia, moral, liturgia, catequese, comunicação, doutrina social da Igreja, missão são alguns dos conteúdos que devem constar nesse plano.
A participação dos agentes é fundamental, afinal, eles são os destinatários primeiros da formação. Lamentavelmente, muitas vezes, a formação é oferecida, mas os membros de nossas pastorais e serviços eclesiais simplesmente não participam. Alguns por razões que justificam, outros por desinteresse ou negligência. É uma pena que seja assim em muitos lugares.
Com o propósito de capacitar ainda mais nossos agentes e de favorecer a integração de nossas equipes e pastorais, o Conselho de Pastoral de nossa paróquia aprovou, no final do ano passado, um pequeno projeto de formação para 2016. Agrupamos nossas comunidades em duas áreas. A Área 1 é composta pelas comunidades de Passagem (aí incluídos os Setores Nossa Senhora da Conceição e Santa Rita), Vila São Vicente e Camargos. Já a Área 2 reúne as comunidades de Vargem (incluído Palmital) e Pombal.
Ao longo deste ano, teremos quatro encontros em cada uma destas Áreas nos meses de janeiro, abril, julho e setembro. Estudaremos, respectivamente, sobre a Campanha da Fraternidade, liturgia, catequese e bíblia. No mês de maio, a formação é para toda a paróquia quando reuniremos os agentes de todas as comunidades no Salão Paroquial. No mês de novembro, convocaremos novamente os agentes para um dia de retiro, afinal, é preciso cuidar de nossa espiritualidade para exercermos melhor a missão que Deus nos confiou.
Para cuidar de nosso plano de formação, foi constituída uma equipe que se responsabilizará por toda a logística. A ela caberá, dentre outras coisas, pensar o conteúdo, convidar o(a) assessor(a), preparar o local, convocar os agentes, prever o material necessário. Claro que essa formação paroquial não dispensa que cada equipe pastoral tenha seus encontros regulares e sua formação específica.

O sonho de um laicato maduro e consciente, cuja atuação vá além dos limites da Igreja e se dê também no mundo social, político e econômico (cf. EG 102) passa necessariamente pela formação. Recorda-nos o papa Francisco: “A formação dos leigos e a evangelização das categorias profissionais e intelectuais constituem um importante desafio pastoral” (EG 102). Deus nos ajude a enfrentar e vencer este desafio. 

segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

Juventude, nossa prioridade.

Pe. Geraldo Martins

Nossa paróquia começa 2016 com dois novos projetos que dão continuidade às decisões de nossa assembleia paroquial de pastoral, realizada no final de 2014. Aprovados pelo Conselho Paroquial de Pastoral (CPP) em reunião última reunião do ano passado (12 de dezembro), os projetos são simples e pretendem ajudar as lideranças da paróquia a crescer em seu compromisso como Evangelho. 

Apresento o primeiro deles que é voltado para a juventude, nossa prioridade para este ano a exemplo do que ocorreu com a família no ano passado. É claro que continuaremos a cuidar da família, fortalecendo a Pastoral Familiar e aperfeiçoando sua organização e atuação, bem como outras iniciativas voltadas para a família. Precisamos avançar muito ainda no cuidado com nossas famílias.

Nossa meta, em relação às juventudes, é apresentar Jesus Cristo para os jovens de modo que venham se apaixonar por ele. O primeiro passo, que já está sendo dado, é realizar uma pesquisa junto aos jovens para conhecer minimamente quem são, onde estão e o que desejam. Jovens de nossos dois grupos – JUM e UFC – vão a todas as comunidades ouvir os jovens. Será uma excelente oportunidade de fazer contatos com as juventudes de nossa paróquia e apresentar-lhes nosso desejo de tê-las conosco para atuar com vistas a construir o Reino de Deus.

O segundo passo será nos meses de fevereiro e março quando realizaremos um encontro com os jovens em cada uma das cinco comunidades da paróquia. Neste encontro apresentaremos nossa proposta de evangelização para a juventude inspirados na pesquisa que estamos realizando neste mês de janeiro. A ideia é construir junto com os próprios jovens uma proposta que lhes responda os anseios e desejos. Eles deverão ser protagonistas nesse processo. O importante é que eles assumam um compromisso com Jesus Cristo e, consequentemente, com a Igreja e com a transformação do mundo.

O terceiro passo se dará em maio quando acontecerá nosso primeiro encontro paroquial para a juventude. Nesta reunião apontaremos o caminho que queremos trilhar com nossas juventudes. Temos consciência de que há muitos jovens com vontade de atuar em nossa paróquia e de mostrar seu rosto para nossa comunidade. Ficaremos muito felizes se, ao longo desse processo, conseguirmos multiplicar nossos grupos de jovens, articulando-os entre si a fim de que mostrem sua força e capacidade de se fazer presente na Igreja e na sociedade.

Outra atividade importante está prevista para 31 de julho quando teremos, em nível arquidiocesano, o jubileu da juventude. Será uma grande concentração de jovens, em lugar a ser ainda definido, em sintonia com a Jornada Mundial da Juventude que se encerrará nesse dia na Polônia. O jubileu terá, ainda, a marca do Ano Santo da Misericórdia, proclamado pelo papa Francisco. 

A partir daí, outras atividades se seguirão como a Semana do Estudante e a festa de Nossa Senhora da Glória (agosto), o despertar vocacional (setembro) e o Dia Nacional da Juventude (outubro). Tudo isso exigirá de todos nós muito empenho, dedicação, organização, criatividade. Nossa meta é fazer os jovens sentirem o profundo amor que Jesus tem por eles. Levá-los a um encontro real, verdadeiro, transformador com Cristo é condição fundamental para que os jovens se coloquem no caminho da vida e da felicidade.

Embora o trabalho se dirija aos jovens, todos somos chamados a participar apoiando e incentivado a juventude a dar uma resposta positiva à nossa proposta. O engajamento de todas as equipes pastorais nesse projeto é condição imprescindível para seu êxito. Afinal, somos uma família e temos responsabilidades uns pelos outros. 

Anime-nos a palavra do poeta: “O rosto de Deus é jovem também/ E o sonho mais lindo é ele quem tem/ Deus não envelhece, tampouco morreu/ Continua vivo no povo que é seu/ Se a juventude viesse a faltar/ O rosto de Deus iria mudar” (Jorge Trevisol).

domingo, 10 de janeiro de 2016

A vida acima do lucro

Pe. Geraldo Martins

A tragédia causada pelo rompimento da barragem de Fundão, da Samarco Mineradora, em Bento Rodrigues, distrito de Mariana, remete-nos à Encíclica do papa Francisco – Laudato Si – sobre o “Cuidado da casa comum”. Neste documento, o papa chama nossa atenção para a destruição do planeta por causa da ação humana que, “a serviço do sistema financeiro e do consumismo, faz com que a terra onde vivemos se torne realmente menos rica e bela, cada vez mais limitada e cinzenta” (LS, 34).

A atividade mineradora se coloca nesse contexto na medida em que é regida por leis que favorecem o lucro astronômico das empresas ao preço da degradação do meio ambiente e do desrespeito aos direitos das populações atingidas pela mineração.

Em 2013, a CNBB publicou uma carta aberta sobre a mineração no país, mostrando sua preocupação com os impactos causados por esta atividade tão cobiçada. “A exploração mineral é uma atividade que provoca impactos em povos, comunidades e territórios, gerando conflitos em toda sua cadeia: remoções forçadas de famílias e comunidades; poluição das nascentes, dos rios e do ar; degradação das condições de saúde; desmatamento; acidentes de trabalho; falsas promessas de prosperidade; concentração privada da riqueza e distribuição pública dos impactos; criminalização dos movimentos sociais; descaracterização e desagregação sociocultural”.

Diante da tragédia em Bento Rodrigues, a Conferência dos Bispos volta a se pronunciar sobre o tema e denuncia a sede de lucro das empresas em detrimento da vida em todas as suas dimensões. Afirma a nota da CNBB: “As vidas dos trabalhadores e moradores tragadas pela lama, bem como a fauna e flora destruídas exigem profunda reflexão acerca do desenvolvimento em curso no país. É preciso colocar um limite ao lucro a todo custo que, muitas vezes, faz negligenciar medidas de segurança e proteção à vida das pessoas e do planeta. Com efeito, lembra-nos o Papa Francisco que “o princípio da maximização do lucro, que tende a isolar-se de todas as outras considerações, é uma distorção conceitual da economia” (Laudato Si, 195)”.

Vários municípios de nossa Arquidiocese convivem, há décadas, com empresas mineradoras que somam enormes lucros. Não obstante os municípios serem beneficiados com os tributos advindos desta atividade, o ônus é muito maior e tem impacto tanto na vida das pessoas quanto no meio ambiente. Preocupado com isso, em 2013, nosso arcebispo, Dom Geraldo Lyrio Rocha, divulgou uma declaração em que revela sua preocupação com os impactos da atividade mineradora e industrial na arquidiocese.

Vale a pena recordar um trecho desta declaração nesse momento. “Toda atividade mineradora e industrial deve ter como parâmetro o bem estar da pessoa humana, buscando a superação dos impactos negativos sobre a vida em todas as suas formas e a preservação do planeta, com respeito ao meio ambiente, à biodiversidade e ao uso responsável das riquezas naturais. É preciso empregar todos os esforços para manter viva a natureza, preservar os mananciais e as nascentes, garantir o habitat dos seres vivos e defender as espécies ameaçadas de extinção”.

quarta-feira, 4 de novembro de 2015

Família e evangelização

Pe. Geraldo Martins

Os olhos do mundo se voltaram para Roma, no mês de outubro, acompanhando, como há muito não acontecia, o Sínodo que discutiu a vocação da família na Igreja e no mundo. Durante vinte dias, 270 bispos, arcebispos e cardeais do mundo inteiro, chamados padres sinodais, reunidos com o papa, debateram intensamente a realidade da família. Aos padres sinodais somou-se mais de uma centena de peritos, convidados e observadores que também ajudaram a colocar sobre a mesa as riquezas e as fraquezas desta instituição que sustenta a sociedade.

A cobertura feita pela grande mídia, por um lado, nos ajudou a tomar conhecimento do assunto discutido pelos padres sinodais. Por outro lado, sua atenção quase obcecada por um único ponto – a participação dos divorciados na comunhão eucarística e a união homoafetiva - nos dá uma visão míope desta reunião convocada pelo papa que discutiu, ampla e profundamente, inúmeras questões que envolvem a família. Daí a necessidade de buscarmos em outras fontes e não ficarmos apenas com o que foi veiculado na grande imprensa.

É claro que o Sínodo não esgotou todos os assuntos ligados à família e tampouco encontrou soluções para todas as suas dificuldades e dúvidas. De acordo com o papa Francisco, o Sínodo ajudou a compreender a importância da família e do matrimônio e deu “provas da vitalidade da Igreja Católica, que não tem medo de abalar as consciências anestesiadas ou sujar as mãos discutindo, animada e francamente, sobre a família”.

Ainda segundo o papa, o Sínodo serviu para abrandar os corações que costumam “se sentar na cátedra de Moisés e julgar, às vezes com superioridade e superficialidade, os casos difíceis e as famílias feridas”, além de ter sido ocasião para reafirmar que ”a Igreja é Igreja dos pobres em espírito e dos pecadores à procura do perdão”.

É bonito e nos enche de esperança ouvir o papa dizer que “o primeiro dever da Igreja não é aplicar condenações ou anátemas, mas proclamar a misericórdia de Deus, chamar à conversão e conduzir todos os homens à salvação do Senhor (cf. Jo 12, 44-50)”.

Francisco nos leva a uma profunda reflexão quando afirma que “os verdadeiros defensores da doutrina não são os que defendem a letra, mas o espírito; não as ideias, mas o homem; não as fórmulas, mas a gratuidade do amor de Deus e do seu perdão”. Com isso, ele não quer negar ou diminuir a importância das normas, “mas exaltar a grandeza do verdadeiro Deus, que não nos trata segundo os nossos méritos nem segundo as nossas obras, mas unicamente segundo a generosidade sem limites da sua Misericórdia”.

Um texto final foi produzido pelos padres sinodais que servirá de base para o pronunciamento oficial do papa que deverá ser feito em forma de documento. A expectativa é grande e, a julgar pelos dois documentos que publicou (Alegria do Evangelho e Laudato Si), além de seus conhecidos pronunciamentos, podemos esperar um documento marcadamente pastoral, profundamente iluminador e corajosamente profético.